sexta-feira, 16 de março de 2012

Um Mestre e seus últimos Discípulos

Conta-se que em tempos passados, estudiosos da filosofia caminhavam junto com aquele que consideravam o mestre maior, o mais sábio de todos. Deixaram todos os afazeres e saíram em uma longa jornada, a fim de descobrir, aprender e viver todas as experiências dos caminhos da vida.



Seu destino final era o mais alto pico da região, onde pretendiam construir um mosteiro, um local de reflexão, ensinamentos e meditação.




Na primeira noite, acamparam na beira de um rio, colhendo frutas da mata para se alimentarem.Veio a segunda noite e encontraram pelo caminho um humilde sítio, onde pediram pousada. O chefe da casa os abrigou no celeiro, mas nada tinha para lhes dar, pois viviam em extrema pobreza, sem a certeza do alimento do dia seguinte.




Dali partiram logo com o clarear do dia, e nada foi dito durante aquela caminhada. Pairava no ar uma grande tristeza em todos pelo desconforto daquela família, e a míngua na qual estavam condenados e fadados a viver.




Na segunda noite, encontraram outro velho sítio, mas desta vez, além da pousada foi- lhes dado algo para comer.Vivia ali um grupo de quatro pessoas e nada mais faziam do que plantar o necessário e tirar vinte litros de leite diários de uma velha vaquinha, os quais vendiam na região, para a compra daquilo que não podiam produzir. Aquela vaquinha era a única e derradeira fonte de renda daquela família, e nada indicava que isso deveria mudar.




Quando veio o amanhecer, o mestre reuniu os seus discípulos e os ordenou que pegassem aquela vaquinha e a entregassem ao dono do sítio da note anterior, para que lhe servisse de alimento, ao menos por algum tempo deveria ser o bastante para o difícil sustento.




Saíram dali, sem que o dono tomasse conhecimento e fizeram o que lhes tinha sido ordenado. Contudo, de volta ao caminho abandonaram o mestre e deixaram que este seguisse sozinho. Não encontraram qualquer justificativa, para aquele que lhes dera pousada e alimento fosse tratado de forma tão injusta.



O mestre seguiu sozinho e se instalou naquele pico mais alto, construindo sozinho a sua moradia. Seu último destino da jornada e objetivo pretendido.




Dois anos se passaram e os discípulos se reuniram novamente. Decidiram que fariam o mesmo caminho e visitariam aqueles sítios, por onde haviam passado.
Grande foi o espanto ao verem no primeiro a grande mudança. Com a vaca que aquele homem recebeu das suas mãos, trocou por dezenas de galinhas poedeiras, e em pouco tempo se tornou o maior fornecedor de ovos de toda a região. O sítio agora ostentava fartura por todos os lados e progredia a cada dia.




Saíram dali felizes e pegaram o caminho que conduzia àquela segunda pousada.
Novamente, constataram grandes mudanças. Aquela família não tendo mais a vaquinha cuidou de conseguir outras formas de sustento, e todos saíram para procurar alternativas de sobrevivência. Com a força do trabalho de todos, logo progrediram. Do velho sítio, construíram uma rica e farta fazenda.




Na noite seguinte os mesmos discípulos se reuniram para avaliar todo o ocorrido, e só ai entenderam a sabedoria daquele que um dia fora deles o grande Mestre. Contudo, mais sábio ainda fora o dono do primeiro sítio, que não havia comido a sua "galinha dos ovos de ouro".

Voltaram aos seus afazeres, pois perceberam que jamais chegariam a Mestres...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobreviveu à própria Morte




Um dia, não muito distante daqui, em tempo ainda não muito remoto, viveu um poeta com uma história ímpar, intrigante e inconfundível. Como todos os poetas, encontrara afinal a sua Musa. Assim a chamou, manteve e preservou; sem jamais tê-la dividido, partilhado, com quem quer que fosse, ou mesmo compartilhado algum momento da sua vida.



Fez dela seu mundo e o cercou de muralhas gigantescas, só concebíveis nas fortalezas dos castelos medievais; ingenuamente acreditando que qualquer ameaça fizesse caminho pelo lado de fora daquele universo, aonde imaginava apenas ele poderia penetrar. Seus motivos eram insuperáveis; as diferenças profundas, que colocavam entre ambos um abismo, onde o outro era apenas a sombra de uma imagem feminina distorcida, inalcançável e obscura, do lado oposto e devasso da visão.


A mulher que descrevia em seus textos era outra; tão outra, que precisava mantê-la protegida do próprio e inominável reflexo. Torná-la real, aproximá-la, trazê-la para seu convívio, corromperia e macularia toda a sua obra literária; mancharia a realidade da própria ficção, seus princípios, e a verdade dos seus ideais defendidos.


Assim, a manteve afastada de si mesma e imune, até que um dia teve notícia de que aquela outra se perdera na desonra de vulgaridades, e se entregara às indignidades, iniquidades e desvarios da sua mente e índole irremediavelmente pervertidas, e se jogara do abismo.
Foi um duro golpe, o mais forte já sentido, que pela primeira vez lhe fez dobrar os joelhos, em angústias desmedidas. Contudo, ergueu-se; entendera o inevitável do anunciado desfecho previsível, e não vendo alternativas, a "enterrou" ainda viva.

Não permitiria, porém, que a sua Musa tivesse o mesmo destino e também sucumbisse. Havia sobrevivido com ela o caráter, honestidade, a verdade, princípios inquestionáveis de nobreza; mesmo que tivessem sido, e fossem agora apenas parte e a única meia face naquela sua ficção.


Eis que então, o poeta novamente levantou a cabeça e mesmo na dor das suas lágrimas sorriu. Orgulhou-se do Amor que plantou, não colheu, mas sentiu; o mais puro e verdadeiro sentimento jamais concebido. Maior do que o infinito do céu que flutuava sobre a sua cabeça; seu único motivo presente visível de inspiração. Alegrou-se com o mundo, que ele mesmo havia criado, traçado pelas linhas da escrita. Naquele mesmo céu, agora só seu, a estrela mais brilhante havia sobrepujado a própria morte; eternizada sublimemente, vivendo na sua arte, aquela virtuosa outra parte, para sempre em suas poesias.


Fez-se exceção às leis conhecidas e aos princípios da própria vida.

sábado, 21 de janeiro de 2012

"Pô cara... legal!"


Remilson tinha fama de ser um dos professores mais exigentes daquele colégio na Pavuna, nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. E talvez o “Re” do seu nome não fosse por acaso, pois queria fazer sempre melhor.

Ai de quem cometesse um só erro de ortografia, sintaxe, concordância, ou até mesmo uma vírgula esquecida, em uma das suas redações. Era perfeccionista, meticuloso ao extremo. O máximo era mínimo, quando se tratava de exigir de si mesmo.

Com este perfil, sempre lhe fora difícil conseguir alguém que lhe aturasse, um par para dividir aquela sua filosofia e mania de perfeição..., até encontrar, em um vagão de trem do metrô da Pavuna, aquela que imaginou ser a mulher há tanto tempo esperada.

Ela estava lá no “empurra, empurra” da multidão, e quase não teve tempo de observá-la em maiores detalhes, a não ser por carregar no pescoço uma corrente com a letra “R”, apoiada entre os seios.

Passou toda noite imaginando qual seria o seu nome. Talvez Rose, Rita, Raynara; quem sabe quantos outros mais...

Queria a todo custo vê-la novamente e tentar um início de diálogo, sem nenhum deslize; de forma tal que causasse uma boa impressão.

Passou toda a semana seguinte na frente do espelho, ensaiando o seu discurso; até decidir por recitar-lhe um poema; no seu melhor estilo e jeito de dizer.

Preparou-se com todo o esmero, e não poderia ser diferente. Quem sabe fosse também uma professora exigente, talvez doutorada. Cuidou de evitar qualquer tipo de engano, um mínimo erro que fosse.

Enfim, a sua grande oportunidade havia chegado naquele fim de tarde, com o mesmo vagão de trem quase vazio. Era o momento certo para a sua tão esperada aproximação:

-“Senhora?”

- “Sei que não me conheces, contudo, permita-me recitar um poema em sua homenagem”.

A mulher ficou sem saber o que dizer, e Remilson viu aí um sinal de permissão, prosseguindo de forma eloquente, como jamais houvera feito antes.

Ao final, todo aquele vagão silenciou por alguns segundos. Remilson ali parado, esperando ouvir dela as suas primeiras sábias e doces palavras.

Com se tivesse retornado de um susto, pausadamente ela articulou os lábios e finalmente fez-se ouvir a sua voz:

- “Pô cara... legal!”

*Texto Ralacionado

domingo, 8 de janeiro de 2012

O Homem que inventou o Buraco



“Dedão” era um sujeito misterioso. Um dia apareceu naquela região e construiu um pequeno casebre, com ripas de caixotes, em um dos maiores terrenos baldios da localidade; fazendo dali a sua morada.

Contam os mais velhos que teria cavado uma caverna logo abaixo, só saindo nos dias mais quentes do verão. Em pouco tempo, virou motivo de comentários e assunto preferido no ainda pequeno povoado.

­De onde vinha? Quem seria afinal aquela assustadora figura? Era o que todos queriam saber.

Sabe-se lá o porquê, jamais cortava as unhas dos pés, e isso lhe gerou aquele conhecido apelido.
Era o terror das crianças. Qualquer que fosse suas travessuras; os pais logo acudiam:

- “Vou chamar o “Dedão!”

Funcionava melhor do que surra de vara verde, ou algum castigo mais severo, comum naqueles tempos remotos.

Alguns diziam que já fora rico, outros que teria sido abandonado pela família, e por desgosto, começou a mendigar. Mas a maioria não tinha dúvidas de que se tratava de um louco. Ainda mais quando ele apareceu carregando em uma das mãos um enorme buraco, que ele mesmo havia construído.

Pronto, foi a gota d’água!

Todos agora afirmavam que o velho “Dedão” havia inventado o buraco.

Um intrigante artefato de madeira, com um buraco ao meio, uma tampa com alça e outra para carregá-lo. Mas carregá-lo pra que?

Havia quem dissesse que era ali que ele teria colocado todo o seu passado, para que nunca tivesse que lembrar. Diziam que todo e qualquer problema colocava no buraco e, de alguma forma, se via livre deles. O fato é que, mesmo assustador, jamais causou problema a quem quer que fosse, enquanto ali ficou.

“Dedão” morreu alguns anos depois, e por ironia do destino foi enterrado em outro buraco, no cemitério mais próximo.

Fico aqui pensando se “Dedão” era de fato “louco” como todos afirmavam, ou tratava-se de um pacificador. Talvez “loucos” sejamos todos nós por só nos darmos conta do “buraco”, quando estamos próximos de nos juntar a ele.

Hoje, no então terreno baldio, onde havia a caverna de “Dedão”; foi construído o imponente prédio de cinco andares da Prefeitura, da agora cidade de São João de Meriti.

Caso ainda fosse vivo; “Dedão”, em toda a sua sabedoria; com certeza diria:

“O lugar é o mesmo; só aumentou o tamanho do buraco”.

"Existe diferença entre a loucura de um sábio e a sabedoria de um louco?"

*Texto Ralacionado.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Musa de um Poeta


Tantas e tantas vezes procurei a razão destes meus delírios;
Deste inevitável encanto eterno,
Que teima em me aprisionar.

Das deusas de formas sedutoras,
Não encontrei em ti nenhuma comparação;
Nem mesmo no teu leve sorriso, ou neste inconfundível jeito de andar.

Dos traços do teu rosto,
Mesmo perfeitos,
Eram perfeitos, como muitos,
Por tantos outros desejados.

Tanta magia, talvez estivesse no falar,
Mas dizias as mesmas palavras,
Que tantas outras,
A tantos outros fizeram sonhar.

Fui além,
Busquei o inexplicável nos caminhos do teu espírito,
Mas de lá eu retornei com as mãos quase vazias;
Com nada, que já não fosse conhecido.

Ainda assim,
Nestes meus delírios és verdadeiramente única;
Permaneces, entre todas, a mais completa;
És simplesmente, e irremediavelmente para sempre a Musa de um Poeta.

Texto Relacionado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Como Àgua e Vinho


Quando nasceste,
A natureza foi contigo a mais generosa.
Lhe deste um sorriso de encanto,
Maior brilho nos olhos,
E todo perfume das rosas.

Pela beleza foi tanto o teu zelo,
Que dedicaste maior tempo ao espelho,
E esqueceste o Espírito.

Hoje, se segues os meus passos, não hesito,
Desvio,
Por sermos assim tão diferentes;
Como água e vinho.

*Texto Relacionado.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quanto custa a sua Felicidade?


Duro mesmo foi ver o constrangimento daquela senhora no caixa do supermercado: Suas compras totalizaram vinte e nove reais e sessenta e cinco centavos e só havia, em uma das suas mãos, uma cédula solitária de vinte.

Teria que fazer a devolução de alguns itens, e a menina do caixa já a olhava com trejeitos de pouca paciência. Eu, ali ao lado, observava todo o seu desespero, sem saber muito bem o que fazer. Parecia uma escolha difícil entre o que podia e o que não podia deixar de levar.

Primeiro tirou o pacote de salsichas; exatos três reais, e talvez a sua única “mistura” do almoço daquele domingo de sol. Depois a margarina; dois reais e noventa centavos. Precisava se desfazer ainda de três reais e setenta e cinco centavos A escolha parecia agora ainda mais complexa, entre o litro de leite e o pacote de feijão.

Confesso que doeu! Paguei a diferença e ela se foi com um sorriso no rosto, como se tivesse levado tudo que havia deixado para trás.

Alguém, por acaso, tem idéia da dimensão do sofrimento de uma mãe que passa por tal situação? Aqueles três reais e setenta e cinco centavos não iriam resolver todos os seus problemas, mas naquele momento, resolveu parte do dela e outra parte do meu, que só queria dar fim àquele triste episódio.

Conta a história que uma professora pedira aos seus alunos que nomeassem as sete maravilhas do mundo; e sete, entre eles, se saíram muito bem:

1- Pirâmide de Quéops
2- Jardins suspensos da Babilônia
3- Estátua de Zeus em Olímpia
4- Templo de Ártemis em Éfeso
5- Mausoléu de Halicarnasso
6- Colosso de Rodes
7- Farol de Alexandria

Apenas um, entre os alunos, questionou a razão de não constar da lista a própria Vida, a Visão, o Sol; entre outras tantas mais, que pensamos existir por mera obrigação.

Para aquela senhora do supermercado teria sido uma “Maravilha” ter levado todas as suas compras; e isso só lhe custaria exatos vinte e nove reais e sessenta e cinco centavos. Era só isso que ela queria para ter ali aquele seu momento de felicidade. E a sua, quanto custa?