terça-feira, 30 de julho de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Juntando Pedrinhas


Havia acordado bem cedo naquela manhã, mais do que o de costume. Toda cidade parecia ainda adormecida e entorpecida, pela ressaca daquela quarta-feira de cinzas de carnaval. Abri a janela e na pracinha, alguns metros adiante; um menino abaixado, parecia envolvido em alguma tarefa, com zelo e muita atenção.

Quando me aproximei por mera curiosidade, sequer pareceu notar a minha presença. Havia um buraco de formigas, que entravam e saiam, parecendo confabularem entre si, no meio do caminho. Ao redor, ia se formando algo parecido com um morro, onde subiam e colocavam as pedrinhas que traziam, de dentro do buraco.

Algumas pedrinhas rolavam pra longe da base, e o menino as trazia de volta, com um pequeno pedaço de madeira, que segurava em uma das mãos. A visão que eu tinha de cima assemelhava-se a um minúsculo vulcão, tendo o menino como seu único e pequeno protetor.

- “Elas constroem o muro em volta, para proteção do caminho que fizeram por baixo da terra”. Explicou o menino.

Seria pouco provável que algo permanecesse ali, depois de uma chuva, que inevitavelmente rolaria morro abaixo da encosta, onde a pracinha fora construída. Ou que sobrevivesse no caminho de algum frequentador menos atento, ou ainda que alguém, por puro descaso chutasse tudo aquilo e espalhasse por todos os lados; ponderei com o jovem guardião das formigas.

_ “Se chutar, não vai ser eu”. Disse o menino.

Sentei no banco, logo ao lado e fiquei um longo tempo observando, como se me faltasse as palavras. Viajei até o passado, lembrei-me dos tempos da adolescência, quando todos os jovens bebiam e fumavam, apenas para acompanhar o modismo, e eu me recusava a fazer o mesmo, pra não ser submetido a nada, que escapasse a minha decisão.
Perguntei a mim mesmo se naquele momento da minha vida eu não estava juntando as minhas pedrinhas.

Talvez ali, bem na minha frente, naquele pequeno gesto, o menino estivesse também construindo, com as mesmas pedrinhas que reunia as bases do seu futuro, como ser humano de caráter e homem de valor.
Havia nele uma cor transparente, que me permitia enxergar o seu modo diferente de ser.


Senti vontade de perguntar pra todo mundo. Senti vontade de perguntar pra você leitor: quantas pedrinhas na sua vida você já juntou?



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Querida Tia Chiquinha



          Na verdade, Vó Chiquinha era minha tia. Destas que todos chamam de avó, pela dedicação, carinho, sabedoria, colo e ombros sempre prontos a acalmar. Amada por todos, era repouso, como as águas mansas dos rios, e foi bem em frente de um que ela construiu a sua casa.
          Tivera infância dura do interior, que moldou a mulher franzina, mas valente, cheia de forças na vontade de viver.
          Os filhos vieram cedo, logo após o casamento, carregados no colo, enquanto lidava com os afazeres das barracas de festas do marido, nas cidadezinhas e lugarejos da região.
          Muitas vezes a vi, sob o frio intenso, dormindo debaixo do balcão das barracas, até a noite passar e recomeçar a festança, para repetir a mesma rotina do dia anterior. Alguns dias depois, voltava para casa no mesmo caminhão, trazendo consigo os filhos, e o cansaço daquela dura vida. Mesmo assim, jamais lhe escapou aquele seu sorriso curto, mas de fazer alagar, como nas enchentes, os rios dos corações de todos.
          Era só começar as férias e lá ia eu na velha maria-fumaça, através das montanhas de Minas Gerais. Era lá o seu cantinho, seu mundo, o seu pedacinho de paraíso, onde ela era as águas das sombras das árvores.
          Ficava fascinado pelo seu jeito de contar histórias, que faziam com que nossos olhares brilhassem, acompanhando aquelas suas narrativas.
          Tia Chiquinha, Vó Chiquinha, era tudo e muito mais. Certa vez, acordei assombrado em sua casa, com ruídos do lado de fora no quintal.

 “Fique tranquilo, é o Bichinho”, disse ela.

            Como iria ficar tranqüilo sabendo haver um “Bichinho” do lado de fora da casa? Talvez prestes a entrar por debaixo da porta ou através dela, e levar as almas de todos nós. Confesso que adormeci de medo naquela madrugada, até que novamente surgisse o sol. Só ai ela explicou que o tal “Bichinho” era um seresteiro, pretendente de Tiana, empregada da casa, que costumava amanhecer nas ruas, nas suas serenatas. O certo é que ela não se casou com ele, segundo dizem; talvez pelo mesmo fato de cantar feito assombração.
          Quisesse encontrar Tia Chiquinha, bastava achegar-se ao fogão à lenha da casa. Era ali que sempre ficava,, fazendo suas receitas e seu insuperável bolo de fubá; dividindo a atenção com o café que passava sobre a velha pedra cinza de ardósia.
          Ah, aquele seu bolo de fubá! Num instante estava pronto, e a criançada rodeava a mesa, ansiosos por espalhar migalhas e farelos por todos os lados. Mas não antes que ela cortasse, da beirada da forma, as partes mais queimadas, meus pedaços favoritos, que ela sempre guardava.
          Teve a infelicidade de ver a morte do marido e três dos seus filhos. Talvez o destino assim tivesse escrito, por ser a mais forte de todos. Mas o fato é que, o sofrimento gerado colocou na sua face o que o frio dos invernos ao relento, e os anos vividos não haviam colocado. Logo a saúde foi-se diluindo, até que perdesse parte da visão e reconhecesse todos quase que apenas pela voz.
          A idade adulta e a rotina de trabalho me tiraram o tempo do seu convívio, mas sempre que podia estava de volta na casa da beira do rio, como fizera toda a minha vida.
          Um dia, senti aqui no peito que o tempo era escasso e era chegada à hora de vê-la; não mais para comer aquele delicioso bolo queimado, mas para dizê-la, como todas as palavras do meu reconhecimento e agradecimento, por tudo que ela havia dedicado a mim.
          Como sempre, a encontrei à beira do fogão e disse-lhe que havia feito mais que uma tia faria, ou uma avó deveria fazer. Acolheu-me e dividiu comigo o mesmo amor e carinho, que dedicara toda sua vida à seus próprios filhos.
          Depois de um longo abraço, saí dali com um nó na garganta, olhos turvados, e a certeza de que fora a última vez, retornando ao Rio de Janeiro para a rotina e as lidas da vida. Dois meses depois chegara a notícia da sua partida. Decidi não fazer esta última viagem, pois a minha gratidão e adeus já havia lhe dado ainda em vida...



domingo, 27 de maio de 2012

Ver para Crer



Caso real dá conta de que um humilde pedreiro fora contratado para a construção de um muro, em uma das ruas mais movimentadas da sua cidade.

No dia combinado, começou a sua empreitada, derrubando o antigo murro que ali houvera sido erguido anos passados; causando algum transtorno aos que passavam pelo local. De início, poucos acreditavam que das mãos daquele ancião pudesse sair algo que surpreendesse. Seria apenas mais um muro, entre tantos outros da mesma rua.

Retirado todo o entulho, o velho empreiteiro começou a sua arte, e bastaram apenas alguns dias para que alguns parassem para olhar, notando, já naquele início, um toque de mestre.

Mais alguns dias adiante, já se fazia ouvir as palavras de estímulo:

_ “Ta ficando bom heim!” Dizia a maioria.

Entre todos, apenas uma velha senhora, que carregava um livro debaixo do braço, jamais parou. Limitando-se a olhar sem tecer qualquer comentário que fosse.

Quase ao final, os carros diminuíam a velocidade, a fim de contemplar melhor o esmero do trabalho realizado, causando acúmulo, no já intenso trânsito daquela rua. Todos repetiam as mesmas palavras:

_ “Parabéns pelo belo trabalho!”

No prazo combinado da entrega do serviço, tinha o mestre feito muitos amigos e clientes por toda parte, e só naquele último dia, a senhora com o livro debaixo do braço parou para cumprimentá-lo:

_ “Quero lhe dar os parabéns pelo belo trabalho realizado e aproveitar para lhe falar deste livro, que contém a verdade sobre tudo que o senhor precisa saber e acreditar.”

O velho mestre olhou bem fundo nos seus olhos e respondeu:

_ “Quando iniciei o meu trabalho, ou mesmo no meio do caminho, a senhora jamais me cumprimentou, e me nega agora o mesmo tempo que precisou”.

Por maior que seja uma verdade, não se colhe antes de plantar e há de se cuidar, enquanto ainda floresce.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Das Vantagens de Ser Prático



Certa ocasião, um homem de bom senso questionou um poeta a razão pela qual ele não fazia algo de mais prático; argumentando que a sua escrita acabaria por levá-lo a morrer de fome.



_ “O que fazia da vida, aquele seu saudoso primo?” Perguntou o poeta.

_ “Era pára-quedista”. Respondeu.

_ “E como veio a morrer?” Insistiu o poeta.

_ “Praticando”, finalizou.

O homem de bom senso retirou-se sem mais nada dizer.

domingo, 6 de maio de 2012

Magia de Sentir




Naquele corpo,
Outro dia envolvido em abraços,
Sopravam novos caminhos.

O perfume de outrora já não existia mais;
Era agora a mais pura das essências,
A magia de sentir.

Quando ela o tocou no braço,
Havia algo incompreendido,
Um êxtase que lhe fez borbulhar,
E misturar todo e qualquer sentido.

Não foi apenas um simples toque,
Era o sopro dos mais fortes sentimentos,
Como pétalas que soltam das rosas,
E perfumam ao sabor do vento.

Mesmo assim,
Precisava ir além, tentar,
Continuar caminho acima,
Perder o medo de não mais poder parar.

Ela mergulhou os dedos entre os pelos do seu braço,
Como pássaro, que se lança no inverno, em vôo baixo rio acima,
Só para provar o sabor do toque da intensa neblina.

E ele respondeu com o calor dos arrepios,
Deixou-se ser lançado naquele mesmo rio.

Já agora,
Duas mentes insanas, ardentes em corpos rosados,
Seres completamente descompensados,
Diante da mais incontrolável das turbulências;
Que sentem, vertem, convertem;
Deságuam em enchentes.

De tirar o calço e molhar as pontas dos pés,
Desfazer os nós dos laços,
Tecer a teia no horizonte desconhecido,,
Ardente, como o fogo que aquece o próprio sol.

Leu nos olhos dela, o mais forte dos desejos,
Como invasor atenuado dos sentidos,
Que vai além do insinuado,
Do que lhe teria sido permitido.

Tal pena fina rubra,
Quase sangrando a folha branca, naquele, apenas seu, suave jeito.

Ela descobriu nos caminhos do seu braço,
Que não há poços profundos, nem segredos, que um poeta não alcance com as pontas dos seus dedos.