sábado, 16 de abril de 2011

Devanir: "O Bobo"


Quando aquele menino nasceu, algo já parecia estar errado. Apesar de várias tentativas, os médicos não conseguiram tirar dele um só gemido no momento do parto. - “Esse menino não vai vingar”, diziam todos.

Devanir era assim, calado, esquisito mesmo, e ninguém parecia lhe entender. Na maioria das vezes ficava com o olhar fixado no chão, sem que alguém sequer imaginasse o que lhe passava pela cabeça.

Cresceu assim e foi uma luta para os pais lhe tirarem de casa para a escola. Só ai então a vida de Devanir começaria a mudar.

Logo aprendeu a ler e lidar com os números; a ponto de seu pai lhe colocar para atender no balcão do armazém da família.
Ficou lá pouco tempo, pois se recusava a receber o dinheiro dos fregueses.

- “Deixa pra pagar depois”; dizia ele.

Pra não ter seu negócio arruinado, seu pai lhe colocou no melhor colégio da cidade em tempo integral, e Devanir só fazia agora estudar.

“O Bobo”; era assim que se tornou conhecido na escola. Quer pelo fato de dar sua merenda aos outros meninos, ou por lhes dar todo o dinheiro que tinha.

Devanir era diferente e ele sabia muito bem disso.

Ainda jovem, tornou-se advogado, e o fez de forma brilhante. Não havia ninguém que movesse uma causa sem primeiro ouvir os seus conselhos e a sua opinião... Mas na hora de receber seus honorários; era como nos tempos do velho armazém do seu pai.

- “Deixa pra pagar depois”, repetia ele.

Vivia rodeado dos nomes ilustres da cidade. Todos queriam ouvir suas palavras e compartilhar da sua companhia.

Mesmo assim, rico nunca foi, nem jamais viria a ser. Definitivamente dinheiro não era a sua prioridade. Passava finais de semana inteiros cuidando do quintal da sua casa, e mesmo com as ferramentas ao seu lado; gostava mesmo era de fazer todo trabalho com as próprias mãos.

Numa dessas vezes, sentou-se debaixo de uma árvore e começou a chorar. Aquele choro contido do nascimento parecia ter despertado naquele momento. Talvez por se sentir tão diferente de todos, não ter as mesmas preocupações e ambições, de se sentir completamente sozinho num mundo, que parecia não ser o dele. Até que um pássaro pousou num galho logo acima e começou a cantar.

Embaixo Devanir chorava e logo acima, o pássaro cantava. Devanir sabia exatamente porque chorava, e o pássaro, sabia por que cantava?

- “É melhor chorar sabendo por que choro, do que cantar sem saber por que canto”, murmurou Devanir, entre as lágrimas do seu rosto.

Cruzei muitas vezes com ele pelas ruas, e como todos também o achava meio “bobo”, mas foi com ele que anos depois eu iria moldar os meus princípios, e aprender a dar valor às coisas que verdadeiramente tem.

Hoje, ao me voltar para o passado pra comparar tudo que aprendi a ser; não me envergonho de admitir que se havia algum “bobo”; esse “bobo” era eu...



(“O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo... É tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos... Só o bobo é capaz de excesso de amor”. Clarice Lispector).

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sua Última Opção


Daqui de onde estou,
Tem mais cor no azul do céu,
As árvores das montanhas dançam na incontida alegria
Do nascer de um novo dia.

Aqui onde estou,
As meninas debruçam sobre as janelas tardes seguidas,
Na esperança da espera do grande amor de suas vidas.

Daqui de onde estou,
Pássaros de todas as cores ignoram a minha presença
E circulam ao redor num constante vai e vem,
Como se eu fosse um deles também.

Aqui onde estou,
A chuva que chega da montanha me toca suavemente em gotas minúsculas,
Como se, do poeta, fosse a própria musa.

Daqui de onde estou,
As noites são mais estreladas,
E quase posso alcançar a imensa lua,
Na sua inebriante cor de prata.

Aqui onde estou,
Toco com as mãos as águas transparentes dos rios,
E me aqueço no fogão à lenha,
Nas noites de intenso frio.

Daqui de onde estou,
As estradas são de chão,
E trilhas no meio das matas;
Os moços tocam viola,
E passam noites seguidas em serenatas.

Aqui onde estou,
É o meu lugar,
De onde eu nunca deveria ter saído pra trazer você comigo.

Daqui de onde estou,
Percebo que foi em vão.
Busquei os seus caminhos,
E encontrei dos meus, a contramão.

Mesmo aqui onde estou,
Não é possível renascer,
Pra poder tentar novamente
Dividir todo esse meu mundo com você.

Daqui de onde estou,
Não sou mais a sua última opção;
Daqueles que você teve,
Na palma da sua mão.

Aqui onde estou,
Chegará o dia em que não mais estarei,
E apenas parte de tudo,
Simplesmente e eternamente, serei...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Joaquim Pedro. Por um amor que nunca viu.


Todo dia, ao entardecer, quase sempre às dezoito horas, sentava ali na calçada da “tia Chiquinha,” esperando a hora exata que o sino da igreja deveria tocar.
Neste mesmo horário, Joaquim Pedro apontava no início da rua com a sua bengala à frente, lhe indicando a direção segura pela qual deveria seguir.

Perdera a visão ainda muito jovem, e desde então, jamais foi visto em qualquer outra companhia. Vivia e caminhava sempre sozinho, e era difícil imaginar como sabia exatamente aonde ir.
Pra onde ia; de onde vinha. Ninguém sabia dizer.

Eu ficava ali imóvel, sem mexer um dedo sequer quando ele se aproximava, com receio de chamar a sua atenção. Aquele seu jeito de caminhar beirando a rua, de cabeça baixa era algo que realmente me assustava. Na verdade, quase todos desviavam e evitavam o seu caminho.

_ “Boa tarde seu moço!”, disse ele.

Nunca consegui entender como ele sabia que eu estava ali parado. De alguma forma, conseguia perceber a presença das pessoas, mesmo lhe tendo sido tirada a capacidade de enxergar.
Caminhou em minha direção, sentou-se na calçada, quase ao meu lado, e começou a falar:

_ “Quando se perde a visão ainda muito jovem, é preciso aprender a ver com os outros dons que você tem. Nesta minha vida de luta desatinada, já vi muitas coisas que não existiam, e outras tantas que existiam e eu não conseguia ver. Hoje, enxergo mais com os olhos cerrados, do que quando os tinha sãos.

Houve um tempo em que fui jovem, sadio e cheio de vida. Um tempo em que corria por estas mesmas ruas nas brincadeiras de menino. Cresci e sabia que em algum lugar estava a mulher que havia sido preparada pra mim. Por esta mulher eu esperei todos os dias. Seu rosto, seu jeito, seu modo de falar; tudo guardadinho na minha cabeça de adolescente, esperando a hora de encontrá-la. Estava em algum lugar que eu não conseguia chegar.

Tinha certeza de que quando batesse os olhos nela, saberia de imediato, reconhecer a minha escolhida; isso se algum tempo depois não tivesse sido privado da visão”.

_ Como é possível viver todo esse tempo, amando uma mulher que nunca viu? Perguntei.

Joaquim Pedro fez uma pausa, voltou a face para a linha do horizonte, bem acima do meu ombro e respondeu:

_ “Quando há sensibilidade, se vive em um só tempo, todas as idades”.

Finalmente os sinos badalaram, e ele apressou-se em seguir. Tomou novamente o canto direito da estrada, e sem dizer mais nada, caminhou até que eu o perdesse de vista.

Aquela foi a nossa única conversa e suas palavras ficaram comigo até hoje. Foi um amigo por um dia, que por falta da visão teve tempo de olhar para dentro de si mesmo. Aprendi mais com ele, do que com muitos que estiveram ao meu lado todo tempo.

Joaquim Pedro era um homem simples; tinha no falar uma estranha e inexplicável sabedoria, que não vinha de nenhum livro. Morreu como muitos. Viveu como poucos: por um amor que nunca viu.
Talvez agora, quem sabe, pra sempre...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Trocando Letras por Livros


18h45min. Com certeza, chegaria atrasado para aquela reunião da Academia de Letras, e pra piorar, o ônibus que não vinha.

Caminhava de um lado para o outro, como se dessa forma, fosse capaz de retardar a passagem do tempo.



Do lado oposto da calçada, dois velhinhos caminhavam lentamente, e a minha pressa perdeu ali todo o sentido.
O casal de namorados, logo atrás, cortaram caminho pela rua, visivelmente contrariados com aqueles dois “obstáculos” no caminho.
Como eles, eu também tinha muita pressa, mas parei para pensar:

Quem se importa com dois velhinhos que caminham na calçada?
Quem está interessado, ou tem tempo para ouvir as suas histórias?
Quem sequer os nota?

Entre o casal de velhos e os jovens, a diferença imediata me pareceu ser que os primeiros sabiam que já foram, e o casal de namorados acreditavam que nunca iriam ser.

Lentamente caminhavam com grande dificuldade, e eu não saberia dizer se era a senhora que amparava o velho senhor, ou se era o senhor que amparava a velha senhora. Na verdade, me pareceu as duas coisas, como se um fosse o pilar do outro. E não era simplesmente um amparo de equilíbrio. Havia muito carinho em cada gesto. O braço segurando o outro, o olhar atento a cada movimento incerto; o cuidado meticuloso de quem tem nas mãos a sua maior preciosidade.

Nem a minha pressa me fez pegar aquele ônibus que finalmente apontou.

Senti vontade de atravessar a rua e cumprimentá-los pelo exemplo. De agradecer pela lição. De ouvir as suas histórias, de saber dos sonhos que tiveram e os que ainda tinham esperança pra ter. Senti vontade de perguntar como era possível tanto carinho, depois de tanto tempo juntos. Senti vontade de poder um dia ser como eles.

Naquele dia, eu havia perdido alguns minutos de conversa com os “Mestres das Letras”, mas ganhei um Livro inteiro de experiência, observando aqueles dois velhinhos...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"Um Elogio aos Idiotas"


Esta semana, um amigo me falava das suas novas experiências de vida. Dizia ele que após ter sofrido um sério acidente, que quase lhe custou à vida; havia mudando completamente.

Que, após ter passado por tantos problemas de saúde, que quase o impossibilitou de caminhar; era agora uma pessoa melhor, melhor filho, melhor esposo, melhor em tudo. Adquiriu novos conhecimentos sôbre meios e recursos de como cuidar da saúde preventivamente, para não ter que recorrer à medicina que cuida da doença, e assim ter uma vida mais longa e saudável.


Conhecimentos tais que lhe possibilitou a oportunidade de ingressar em uma nova vida profissional de sucesso.

Perguntei-lhe então o que lhe dava a certeza de tais mudanças. Foi então que ele me respondeu que esta era “uma pergunta idiota, pois segundo ele, ninguém pode avaliar o sofrimento alheio. Que ninguém pode sentir o que o outro já sentiu. Que as próprias experiências e dores são intransferíveis. Sendo assim, não caberia a minha pergunta, ou qualquer explicação.

Após esta conversa, decidi rever o conceito que eu tinha do vocábulo” idiota”, e fui buscar nos dicionários as definições, que seguem abaixo:


1) idiota adj./s. com. Se aplica a pessoa que está escassa, ou carece de inteligência, que é torpe de entendimento. estúpido, imbécil, tonto.
OBS Frequentemente usado como insulto.

2) adj. e s.m. e s.f. Diz-se de, ou indivíduo estúpido, falta de inteligência, de bom senso.
Diz-se de pessoa retardada, cuja idade mental não passa de três anos.

Sinônimos: burro.
Antônimos: inteligente

Seguindo na minha busca, encontrei um texto que me parece elucidar a questão:

“ Um Elogio aos Idiotas”

Carlos Cardoso Aveline

“Na vida acelerada do mundo de hoje, todos desejam ser espertos, vivos e astuciosos.
Ninguém quer ficar para trás - quando você está indo, os outros já estão voltando. Ninguém mais diz frases com segundas intenções: dizem coisas com terceiras, quartas e quintas intenções. Frases que, com sorte, um leigo no assunto precisa de várias horas para decifrar e talvez dois ou três dias para imaginar uma resposta à altura.
Em compensação, alguém que diz diretamente aquilo que pensa acaba provocando escândalo e mal-estar. É imediatamente catalogado como perigoso e tratado como idiota. A sinceridade parece contrariar as normas da convivência e da boa educação modernas. Assim, as pessoas bem educadas são amáveis, mas nem sempre se deve acreditar no que dizem.
É certo que, quando examinamos a questão da inteligência e da idiotice, surgem algumas perguntas indiscretas. O que é inteligência? O que é burrice? Quantos tipos há de idiotas?
Podemos dizer que inteligência é a capacidade de perceber o real. Como há realidades muito diferentes no mundo, não existe um tipo único de inteligência. Cada situação da vida requer um tipo específico de percepção, e por isso as inteligências são múltiplas. A idiotice e a burrice podem ser definidas como a incapacidade de perceber o real, e são tão variadas quanto às inteligências. Há, portanto, muitos tipos de idiotas. Alguns deles, inclusive, são espertalhões. Sim, há muitos idiotas que passam por inteligentes, e também grande número de pessoas inteligentes que passam por idiotas.


Além disso, quem é inteligente em uma área da vida pode ser burro em outras. Você é esperto em política e burro na hora de jogar futebol. Sua namorada pode ser menos intelectual que você, na hora de discutir filosofia, mas há aspectos da vida em que ela coloca você no chinelo. Há coisas que seus filhos fazem bem melhor que você, como, talvez, compreender as sutilezas de um videogame ou computador. Felizmente, ter sabedoria não é saber tudo. Ter sabedoria é saber o mais importante - e administrar bem os seus talentos.

Conheço seres humanos que têm tanto medo de parecer burros que aplaudem - ou pelo menos fingem que compreendem - esse tipo de raciocínio longo, difícil, sem significado algum. Mas tal constrangimento é desnecessário: deixando de lado o medo de parecer idiotas, perderemos menos tempo fingindo e seremos mais felizes.

Os sábios, como os idiotas, são íntegros. Eles não fingem que são inteligentes e não têm medo de errar. Tentam, erram e conhecem o sabor da derrota. Mas, quando acertam, são geniais. O idiota de hoje pode ser o sábio de amanhã, graças à experiência adquirida. Em compensação, aquele que não possui ânimo para tentar não tem chance alguma de aprender.
Por isso devemos criar uma cultura em que é permitido a cada um cair e levantar livremente. Porque somos todos apenas aprendizes. Erramos e aprendemos o tempo todo, e devemos estimular em cada ser humano a coragem de buscar - mesmo tropeçando - os seus sonhos mais elevados. Banindo da nossa cultura o medo ao ridículo, cada um se permitirá um pouco mais de deselegância e autenticidade em sua maneira de viver.
O exemplo de Albert Einstein, um dos maiores gênios da ciência moderna, é ilustrativo. No início da vida, ele recusou-se a falar até os três anos de idade. Seus pais - pessoas sensatas - pensavam que fosse retardado mental. Mais tarde, quando Einstein ingressou na escola, ele foi novamente considerado imbecil”.


Ter algum conhecimento específico não faz de ninguém inteligente, assim como não o ter faz de alguém um idiota. Creio que meu amigo confunde conhecimento com sabedoria. O primeiro ele já tem, resta-lhe ainda adquirir o segundo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Todinho


Todinho era uma criança especial. Especial em todos os sentidos. Sempre muito calado, cabeça baixa e de pouca conversa, mas parecia ter o carinho de todos. Quando ele chegava com sua bermuda na altura dos joelhos, a garotada logo se apressava para escolher os jogadores de cada time.
Valmir sempre decidia tudo, e não era pra menos, como craque da rua e do bairro. Suas pernas tortas desorientavam os marcadores, que ficavam sem saber em qual direção ele ia partir com a bola.

O certo era que, time que Valmir jogava, Todinho ficava do outro lado. Diziam os garotos que se não se podia ter quem fizesse os gols, ao menos teriam quem os evitasse.
Com a bola nos pés Todinho não sabia o que fazer. Até que tentou, mas nunca consegui grande coisa. Era uma presa fácil para os jogadores dos outros times. Mas quando o colocaram no gol, como última opção; virou a pedra no sapato de Valmir, e seus dias de artilheiro pareciam ter chegado ao fim.
Todinho simplesmente segurava tudo com uma facilidade que impressionava a todos.

Certa vez perguntei aos outros meninos a razão do seu apelido. Diziam que era devido a sua semelhança física com um menino da propaganda do achocolatado de marca bem conhecida, naquela ocasião.

Como Todinho não ligou; o apelido pegou.

Tinha lá pelos seus 12 anos de idade e nunca lhe vi acompanhado de nenhum outro amigo, o que seria normal nos garotos nesta idade. Estava sempre sozinho, e talvez tivesse escolhido agarrar no gol pra não ter mesmo que falar com mais ninguém.

O fato é que aquele menino voava como um pássaro. Valmir já tinha virado motivo de chacotas e piadas no grupo por não conseguir marcar gols nas traves de Todinho.

Um dia, Valmir decidiu que isso iria mudar. Quando entrou em campo naquele dia, estava sério e parecia ter uma idéia fixa na cabeça. Olhava pra Todinho de lado, como se lhe enviasse algum recado.

Não deu outra!

Mal começou o jogo, Valmir pegou a bola e saiu driblando todo mundo. Com suas pernas tortas ninguém sabia pra que lado marcar. Se fossem pra esquerda, Valmir saia pela direita, e se ficassem, era bola pelo meio das pernas na certa. Não tinha quem lhe fizesse parar. Ele corria com toques sobre a bola que ia rolando a sua frente, como se fosse cúmplice dele. Até que finalmente ficou cara a cara com o gol defendido por Todinho.

Parou ali na certeza da facilidade e do êxito do seu chute. Eram apenas quatro metros e não tinha como errar. Todinho estava lá parado no centro do gol impassível sem mexer um só dedo sequer, mas seus olhos...

Nunca tinha visto coisa igual. Os olhos verdes de Todinho estavam fixados nos olhos de Valmir, como se esperasse sair dali a direção que a bola finalmente tomaria.

Valmir deu um sorriso debochado, ameaçou chutar num canto, deu uma paradinha no meio do caminho e chutou no outro. Quando a bola partiu, Todinho, do outro lado partiu na mesma direção da bola. Tinha endereço certo no canto esquerdo da trave, e tudo indicava que Todinho chegaria atrasado sem que nada pudesse fazer.

Como um pássaro em vôo diagonal livre; Todinho foi ao encontro da bola. Pernas estiradas, braços esticados, dedos apontados firmemente na direção do canto. Foram segundos que duraram uma eternidade.

Quando ele caiu ao chão, fez-se um enorme silêncio. Valmir já comemorava com os braços levantados pra torcida, mas Todinho rolou várias vezes sobre o próprio corpo e por pura mágica levantou do outro lado com a bola entre seus braços, batendo a poeira do seu corpo.

Jamais esqueci aquele momento. Pegaram ele no colo, jogaram para o alto. Era agora o mascote e o preferido da torcida.

Valmir também me impressionou. Pensei que fosse ficar irado e saísse sem nada dizer. Em vez disso, caminhou na direção de Todinho, o cumprimentou e lhe deu um forte abraço. Daquele dia em diante só jogava se tivesse do seu lado as mãos mágicas daquele menino.

Um dia senti a sua falta nas nossas brincadeiras do futebol e procurei saber o que tinha acontecido. “Ta descansando”, diziam todos. Achei que havia algo mais do que isso, pois ele nunca mais aparecia.

Até que sua mãe, vendo a minha aflição, contou-me o acontecido:

Havia sérias suspeita de que Todinho estava com “Paralisia Infantil”. Caso isso fosse confirmado, jamais tornaria aquele gramado, ou qualquer outro, e provavelmente jamais fosse visto caminhando pelas ruas novamente.

Chorei muito naquele dia, como nunca tinha feito antes. Eu adorava aquele moleque e não podia acreditar que isso estivesse acontecendo com ele.

Uma manhã o vi saindo para o médico amparado por seus pais. Volta e meia dobrava os joelhos, como se lhe faltasse firmeza pra ficar de pé e caminhar. E isso se repetia todos os dias.

Depois de muito insistir, sua mãe me permitiu ir junto com Todinho nas consultas aos especialistas. Quase todos acreditavam tratar-se mesmo de “Paralisia Infantil”, que ia a cada dia lhe tirando o controle e a mobilidade do corpo. Doença sem cura, até então.

Os pais de Todinho deixaram suas vidas de lado para cuidar só do menino. Todo dinheiro era usado na tentativa de salvar-lhe a vida. Algumas vezes ficavam o dia inteiro só com o café da manhã pra não gastar o dinheiro da passagem de volta.

Vendo o entra e sai do menino no hospital todos os dias, um velho médico procurou saber do que se travava, e começou a acompanhar o caso.
Dr. Fabiano Lima e Silva era o mais respeitado médico daquele hospital e tomou Todinho como um desafio seu.

Em umas das consultas posicionou Todinho do lado oposto da mesa, pegou sua caneta de formatura bem ali ao lado e o desafiou a pegá-la:

_ “se conseguir pegar é sua”, disse o velho doutor.

Lembrei na hora da vez em que Todinho agarrou aquela bola de Valmir. Pensei: “Ele vai conseguir; precisa!”

Como daquela vez, Todinho olhou fixo nos olhos do doutor, que havia acabado de desafiá-lo. Com muito esforço, de lhe tirar gemidos sussurrados, conduziu a mão em direção a caneta, mas ela parecia se revoltar e não querer seguir adiante. Franziu a testa, como se fosse pular novamente em vôo livre, como fazia nas partidas de futebol, e num esforço maior a caneta estava lá entre os dedos de uma das suas mãos.

Foi uma alegria geral. Abraços, apertos de mãos. Desta vez, choramos todos juntos, abraçados ao doutor. "Seu filho vai se curar”, antecipou o médico entre risos de alegria.

Enfim, não era a doença imaginada a princípio, e sim uma outra de nome “Coréia”, rara, com as mesmas características, mas não tão grave, até então desconhecida pela maioria dos médicos.

Passados alguns meses, me emocionei ao vê-lo de volta aos campos de futebol, mas agora seu maior troféu era aquela caneta. Sempre que hesitava em fazer alguma coisa era para ela que voltava os olhos, e de alguma forma, tirava de lá a força necessária para vencer todos os seus desafios.

Nunca mais me separei dele, nem ele de mim, e a caneta o seguiu por toda parte; na arte da escrita de um poeta, moldado na experiência da sua própria vida.

Hoje, quando o vejo com olhar perdido, fixo em algum ponto qualquer, tenho certeza de que está tentando antecipar a direção dos seus sonhos.


Carlos Lucchesi, 04/09/2010.

sábado, 21 de agosto de 2010

Meu Quarto 3X4


Como todas as noites, eu estava ali no quarto, caminhando de um lado para o outro, sem nem mesmo saber o porquê. Engraçado como a gente faz isso sem perceber, quando os pensamentos viajam para lugares distantes no tempo e no espaço. Era um quarto 3x4, e não tinha muito aonde ir. Andava em círculos, melhor dizendo; em "quadrados”, e por puro hábito de fazer, não batia com a cabeça na parede no fim de cada reta.

Havia uma velha cama bem ali ao lado, e dizem os especialistas que é onde passamos a maior parte das nossas vidas.

Entrava pela porta no mesmo horário de todos os dias. O relógio na cabeceira da cama não me deixava enganar. 20h00min em ponto eu chegava, e só tinha tempo mesmo de ligar a TV pra assistir o telejornal na tela de 14 polegadas.

Na parede lateral uma grande janela 220 x 150, de onde eu via o nascer e o fim de cada dia.
E a minha vida estava assim certinha, toda encaixotada sob medidas.

A porta nunca foi uma saída. Quando o relógio despertava, já quase em cima da hora, eu me apressava no banho pra sair e trabalhar. O portão era o mesmo de sempre. Forçava com o pé direito a base e empurrava pra fora. Com a mão esquerda puxava pra dentro, enquanto que a direita virava a chave. Pronto! Abria. Pra fechar era só dar um empurrãozinho e ele batia barulhento bem atrás de mim. Estava atrasado e não tinha mesmo tempo para esperar.

A vizinha em frente estava sempre lá lavando a calçada, como fazia todos as manhãs. “Que vida chata tinha a minha vizinha”. Pensei; enquanto ela pensava o mesmo de mim.

O ponto do ônibus era como uma família reunida. De longe eu já conhecia as pessoas pelas roupas que usavam. Sandra e Vilma falavam dos novos amigos virtuais da noite anterior. Seu Antônio e dona Esmeralda comentavam das lindas netinhas. Tinha até aquele conquistador barato, de óculos escuros, que olhava pras meninas como se fossem um sorvete de morango.
Eu pouco falava, e nunca estiquei qualquer assunto. Eram sempre os mesmos e sempre cortados, quando finalmente o ônibus se aproximava.

Tinha enfim chegado ao trabalho. “Bom dia, como vai?”. E isso se repetia até o final do corredor. E não importava muito, porque ninguém nunca respondia. Como se a resposta fosse desnecessária. Vez em quando, murmuravam algumas coisas, que eu mal conseguia entender.
Ligava o PC e a tecnologia automática abria a página do trabalho do dia anterior. Era só continuar de onde eu havia parado.

Parada mesmo estava a minha vida!

Toda noite era sempre a mesma rotina de volta para aquele quarto 3x4.

Queria a insegurança, o desconhecido; sem portão com manias, sem as mesmas vizinhas lavando as calçadas, ou os mesmo assuntos do ponto de ônibus. Queria fazer diferente; dizer: “prazer em conhecer!”.
Já estava cansado de não correr riscos. Mas como mudar? Tantos anos naquele quarto me fez acreditar que era o único lugar que existia.

Deitei naquela noite tentando descobrir uma outra porta para abrir.